APAGO  

Apago o que quero esquecer,
apago o que quero guardar.
Apago o que ainda posso ver,
apago para desamar.

Apago para não me perder,
apago para não voltar lá.

Apago, não para desaparecer,
mas para ser inteiro
do lado de cá.


Texto e arte: Rubens Baptista
Publicado originalmente na seção Poíesis — Revista de arte, filosofia e cotidiano.


Nota editorial

Em “Apago”, o esquecimento não é fuga, mas uma forma de resistência interior. Há lembranças que preservam; há outras que prendem. Há imagens que iluminam; há imagens que mantêm o homem de joelhos diante do que já não pode ser vivido.

Nietzsche via no esquecimento uma força ativa: não a fraqueza de quem perdeu a memória, mas a saúde de quem se recusa a transformar toda ferida em ressentimento. Sob essa luz, apagar não é negar o passado, mas impedir que ele governe o presente. O poema também conversa, em sentido inverso, com Borges: se Funes, o memorioso, era condenado a lembrar tudo, o eu lírico de “Apago” escolhe esquecer o bastante para continuar sendo. Apaga o que ainda vê, apaga o que ainda prende, apaga para não voltar ao lugar da dor sem sentido.

Nesse ponto, a imagem da névoa também ilumina o poema. Nem tudo precisa permanecer nítido para continuar verdadeiro. Às vezes, a memória precisa perder contorno para deixar de ferir com a mesma precisão. O apagamento, aqui, não destrói o vivido; apenas retira dele o poder de ocupar todo o espírito.

Por isso, o verso final desloca tudo: “do lado de cá” não é apenas um lugar. É uma posição diante da própria vida. Apagar, aqui, não é desaparecer, mas permanecer inteiro.

Leituras recomendadas

Para continuar a travessia entre memória, esquecimento, dor, permanência e criação, leia também:

  • Um sonho dentro de um sonho: Poe, a areia que escorre e o instante que permanece
    A areia que escorre entre os dedos amplia o diálogo de “Apago” com o tempo, a perda e a impossibilidade de reter tudo o que foi vivido.
  • Autopsicografia, de Fernando Pessoa
    Pessoa ajuda a pensar a dor que se transforma em forma: aquilo que fere, quando atravessado pela linguagem, deixa de ser apenas ferida e passa a ser criação.
  • Invictus
    Um poema sobre resistência interior, dignidade e domínio de si. Leitura complementar para o gesto de quem apaga não para sumir, mas para permanecer inteiro.
  • Os que sentem demais
    Uma reflexão poética sobre intensidade, sofrimento e sensibilidade. Território próximo daquele em que “Apago” escolhe esquecer para continuar sendo.
  • Círculos
    A repetição da dor e a dificuldade de sair dos próprios ciclos encontram aqui uma leitura vizinha ao movimento de apagar para não voltar ao mesmo lugar.
  • A Supremacia Absoluta de Cristo
    Uma leitura mais ampla sobre mente, tentação, excesso e libertação interior. Caminho possível para quem lê “Apago” como gesto de limpeza espiritual.

Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

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