Entre prestígio, mercado e a tentação de se ver pelo olhar do outro
Há algo de fascinante e talvez um pouco constrangedor na noite do Oscar. Enquanto o mundo assiste ao desfile de discursos e estatuetas, uma indústria americana, reunida em Los Angeles, celebra a si mesma e, com notável eficiência, convence o resto do mundo a fazer o mesmo.
O Academy Awards, concedido pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences, nasceu em 1929 como resposta a tensões internas de Hollywood. Escândalos, disputas trabalhistas, necessidade de respeitabilidade. Era preciso organizar a casa e, de preferência, com elegância. Criou-se um prêmio, um ritual e, como não poderia deixar de ser, uma narrativa.
O prêmio e a indústria
O Oscar nunca foi neutro e nunca pretendeu ser. No fundo, é um mecanismo de autorreconhecimento. Uma indústria poderosa que, ao premiar seus próprios membros, define padrões, estabelece referências e, com o tempo, constrói uma linguagem comum para o que se entende por grande cinema.
A partir daí, o movimento se impõe quase naturalmente. O que começa como celebração interna transforma-se em referência externa. O cinema americano não apenas competiu; ocupou espaço, distribuiu melhor e falou mais alto. Com o passar do tempo, o prêmio deixou de ser apenas um evento e passou a operar como um filtro simbólico global.
Não se trata de conspiração, mas do aproveitamento consistente de uma oportunidade que vem sendo repetida há quase um século.
Um espetáculo que gera poder e muito dinheiro
O Oscar provavelmente agradaria a Francis Underwood, de House of Cards. Poder e dinheiro raramente caminham separados, mas aqui eles parecem se reforçar mutuamente.
Com o avanço da distribuição internacional e, depois, das plataformas digitais, o prêmio deixou de ser uma cerimônia e passou a funcionar como um amplificador. Filmes premiados circulam mais, atores premiados valem mais e histórias premiadas atravessam mais fronteiras.
E, em algum ponto desse processo, há algo de quase coreografado nisso tudo, como Tom Cruise dançando sem cerimônia no fim de Tropic Thunder: poder, dinheiro e espetáculo, tudo ao mesmo tempo.
O economista chamaria isso de efeito reputacional. O cientista político, de soft power, conceito desenvolvido por Joseph Nye para descrever a capacidade de um país influenciar outros pela atração.
Enquanto o mundo assistia ao domínio de Paul Thomas Anderson com seu Uma Batalha Após a Outra, que encerrou a temporada com sólidos US$ 209 milhões em bilheteria, o Brasil viveu um fenômeno raro de mobilização.
O “hype” em torno de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não foi apenas cinéfilo; foi um exercício de soft power em tempo real. Ver Wagner Moura no tapete vermelho como o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator, e o filme figurando em quatro categorias, gerou um engajamento que há décadas não se via. Mas, para além do tapete vermelho, há uma engrenagem econômica que merece ser decifrada.
Após o anúncio das indicações, em janeiro, a procura por O Agente Secreto nos cinemas brasileiros saltou 250% e, com um orçamento de R$ 27 milhões, o filme já rendeu mais de R$ 50 milhões apenas em bilheteria doméstica, alcançando a marca de 2,46 milhões de espectadores.
O selo da Academia e o peso de Wagner Moura levaram a obra a uma arrecadação global de US$ 17 milhões, cerca de R$ 85 milhões. O filme já faturou mais de três vezes o seu custo inicial, provando que o cinema brasileiro, quando estrategicamente posicionado, é um ativo de alta performance.
O Oscar transforma prestígio em dinheiro e dinheiro em mais prestígio.
Quando o mundo aprende o jogo
Nem todos os países assistem passivamente a esse processo. Não é difícil perceber para onde vai a maior parte desse dinheiro e desse prestígio.
A Coreia do Sul decidiu jogar. Quando Parasite venceu o Oscar, o feito pareceu extraordinário. E era. Mas não era improviso. Havia ali anos de investimento em cultura, estrutura de produção, estratégia de distribuição e domínio da linguagem internacional. A análise sobre o investimento estatal coreano na cultura, o movimento Hallyu, é amplamente documentada como uma estratégia deliberada de exportação cultural.
O filme falava coreano, mas dizia algo que o mundo inteiro compreendia. Os sul-coreanos não buscavam reconhecimento; estavam ocupando espaço e consolidando um movimento que já se manifestava no consumo global de doramas e manhwas.
Nelson Rodrigues, ainda à espreita
É aqui que a reflexão ganha contorno mais delicado. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro sofre de “complexo de vira-lata”. O termo foi cunhado após a derrota do Brasil na Copa de 1950, descrevendo a tendência de se enxergar menor diante do estrangeiro.
A frase envelheceu bem demais.
Celebrar o Oscar não é problema. Depende do que se celebra. Se for o fortalecimento da indústria cultural brasileira e a ampliação de seu soft power, há lógica nisso. Mas nem sempre é o que se vê.
Quando o valor de uma obra passa a depender do reconhecimento externo, algo se desloca. Isso significa, em alguma medida, que a obra se ajustou a padrões que não são necessariamente os seus. Pode ser mérito. Pode ser estratégia. Mas não é neutro.
Quando o aplauso externo substitui o olhar próprio, instala-se um desequilíbrio silencioso.
Quando o Marquês de Pombal proibiu a língua geral no Brasil, não estava preocupado apenas com a disseminação do português. Havia um projeto de controle cultural.
Há sempre algo mais em jogo.
Um contraponto interessante está na formação cultural. No Brasil, os escravizados conseguiram preservar, em certa medida, ritmos e práticas. Hoje, somos reconhecidos por isso. Nos Estados Unidos, essa liberdade foi mais restrita, com exceções como a Congo Square, em New Orleans. Foi ali que nasceram o blues, o jazz e, depois, o rock.
Pensar Nelson Rodrigues, nesse ponto, é quase inevitável.
E quando não se joga
Outros países simplesmente seguem outro caminho.
A Bollywood raramente aparece no Oscar, e isso diz pouco sobre sua relevância. A Índia é, há anos, o maior produtor de filmes do mundo, com algo entre 1.500 e 2.000 títulos anuais. Seu mercado interno ultrapassa um bilhão de espectadores potenciais, e sua diáspora amplia esse consumo globalmente.
Em termos econômicos, o cinema indiano movimenta bilhões de dólares por ano, não apenas em Bollywood, mas também nas indústrias de Tollywood e Kollywood, sustentado por bilheteria doméstica, televisão, streaming e direitos musicais que, naquele contexto, são estruturais.
Seus astros não dependem de validação externa. Seus filmes não precisam de tradução cultural. Seu público já está formado. Vitória da identidade e autonomia.
Talvez seja essa a escolha silenciosa: crescer dentro de um sistema próprio ou buscar reconhecimento dentro de um sistema alheio. Ambos funcionam, mas não são o mesmo jogo. Em um deles, a mesa já está posta por outros.
A engrenagem invisível
Por trás do glamour, há algo menos visível e mais decisivo: propriedade intelectual.
Roteiros protegidos, personagens licenciados, marcas exploradas globalmente e direitos autorais que se multiplicam em diferentes janelas de exploração. O valor não termina na estreia; ele se prolonga, se adapta e se monetiza continuamente.
Em 2023, o mercado global de entretenimento e mídia ultrapassou US$ 2 trilhões, impulsionado justamente por esses ativos intangíveis. O filme deixa de ser uma obra isolada e passa a funcionar como uma plataforma econômica.
Não é por acaso que grandes estúdios tratam seus catálogos como ativos estratégicos. A The Walt Disney Company construiu grande parte de seu valor sobre personagens e universos que continuam gerando receita décadas depois.
Se o Oscar é o palco, a propriedade intelectual é a estrutura que sustenta o espetáculo. Não por acaso, a Convenção da União de Paris (1883) e a Convenção de Berna (1886) — fundamentos do sistema internacional de propriedade intelectual — atravessaram mais de um século, sobreviveram a duas guerras mundiais e continuam organizando, discretamente, a circulação global de valor.
Hollywood entendeu isso cedo. A Coreia estruturou esse modelo com precisão. A Índia o aplica em escala.
O valor não está apenas no filme, mas no que pode ser feito com ele depois e, sobretudo, em quem detém esse direito.
O que, afinal, está em jogo
O Oscar continuará sendo relevante, talvez cada vez mais, não apenas como prêmio, mas como instrumento de visibilidade global.
Mas relevância não significa exclusividade.
Ele influencia mercados, amplia alcance e reposiciona carreiras. Ainda assim, não define sozinho o valor de uma obra nem o destino de uma indústria.
Em 2023, o cinema global ultrapassou US$ 30 bilhões em bilheteria, enquanto o streaming superou US$ 100 bilhões em receitas. O centro de gravidade já não está apenas na premiação, mas na capacidade de circulação e monetização contínua.
O Oscar influencia, mas não monopoliza.
No fim, a questão não é ganhar ou não ganhar. É entender o jogo e decidir como participar dele.
Há quem busque a estatueta. Há quem a ignore. E há quem construa valor suficiente para que o reconhecimento venha, mas nunca seja condição para existir.
O Brasil possui o repertório e a “língua geral” da criatividade; falta-nos, talvez, a decisão estratégica de tratar nossa cultura como o ativo de capital que ela de fato é.
Leituras conectadas
Para quem acompanha esse debate, outras leituras ajudam a ampliar o quadro.
- Paramount, Warner e o jogo do poder na indústria cultural
- O agente secreto das patentes brasileiras
- Roma e o software do poder
Rubens Baptista escreve sobre propriedade intelectual, estratégia e cultura.
Editor do Jornal da Propriedade Intelectual.

