Um sonho dentro de um sonho: Poe, a areia que escorre e o instante que permanece

Circula na internet uma frase “de Poe” sobre a areia que escorre entre os dedos e a vida como ilusão. Ela não é dele. A metáfora, porém, é — e aparece com força em A Dream Within a Dream, poema de 1849. Entre a vertigem romântica e a sobriedade estoica, fica um eixo comum: a fragilidade do tempo vivido.

BLOCO I — Tradução autoral (português)

Tradução livre de “A Dream Within a Dream” (1849), de Edgar Allan Poe — domínio público.

Dá-me um beijo na fronte,
E, ao partir de mim agora,
Permite que confesse:
Não erras ao dizer
Que meus dias foram um sonho;
Se, porém, a esperança fugiu
Numa noite ou num dia,
Numa visão ou em nenhuma,
Terá sido por isso menor a partida?
Tudo o que vemos ou parecemos
Não passa de um sonho dentro de um sonho.

Permaneço à beira do tumulto
De uma praia açoitada pelas ondas,
E seguro na mão
Grãos de areia dourada.
Quão poucos! — e, contudo, como escorrem
Por entre meus dedos para o abismo,
Enquanto choro — enquanto choro!
Ó Deus! Não posso reter
Um único grão com mais firmeza?
Ó Deus! Não posso salvar
Um só da onda impiedosa?
Será tudo o que vemos ou parecemos
Apenas um sonho dentro de um sonho?

BLOCO II — Texto original (inglês)

“A Dream Within a Dream” — Edgar Allan Poe (1849). Domínio público.

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow —
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand —
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep — while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

BLOCO III — Areia, ilusão e o instante

A frase popularmente atribuída a Poe — “Como a areia que escorre entre os dedos…” — não consta em suas obras. A imagem, contudo, é autêntica: no poema, a areia não simboliza apenas memória; simboliza a impotência diante do tempo. Não é a recordação que escapa: é o próprio instante.

Poe não afirma que a vida é ilusão. Ele pergunta. E nessa pergunta reside a diferença abissal entre poesia e slogan. A citação apócrifa entrega uma resposta pronta; o poema expõe a angústia diante da finitude, que é desafiada pela esperança de reter ao menos um grão.

Marco Aurélio, em Meditações 2.14, oferece um contraponto decisivo:

“Ainda que vivesses três mil anos, ou trinta mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde.”

Enquanto Poe sente a areia escapar — perguntando se tudo não passa de um sonho, em desespero romântico diante do inevitável — Marco Aurélio aceita o instante. Cercado por guerras e decisões irreversíveis, ele captura o valor do presente para sustentar uma ética que racionaliza escolhas de vida e morte.

Marco Aurélio lembra de nossa insignificância histórica, para gerar tranquilidade (ataraxia), enquanto Poe usa a mesma imagem para gerar sublimidade e terror. Homens diferentes, buscando o que lhes parece falta na vida, mas, entre eles, há um ponto de tangência: a vida é frágil. Ela é fugidia. Mas não é necessariamente ilusória.

Epílogo

A areia escorre — e só deixa de escorrer nos sonhos.
Mesmo que a vida se dissolva na memória, somos continuamente ancorados à realidade pelo grão que cai agora.
Entre a vertigem e a sobriedade, uma coisa permanece incontornável: a vida.


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