Os que sentem demais

Depois de transformar amor em vertigem e dor em poesia, resta o chão. E, nele, o ar, a luz, o café e a inesperada dignidade da vida simples.

A poesia, pensei, serve aos apaixonados
e aos masoquistas.

Para eles,
amar é precipitar-se.

Sofrer,
permanecer na queda.

O apaixonado sofre e chora,
pedindo ao amor
mais amor.

O masoquista sofre e sorri,
chamando de amor
a própria dor.

Nós, os que sentíamos demais,
fazíamos da sede palavra,
do abismo música,
do gemido verso
e da queda,
destino.

E caímos.

De palavra em palavra.
De promessa em promessa.
De abismo em abismo.

Caíamos
até o fundo do fundo,
onde o amor não alcança,
onde a dor não basta
e o poema
já não diz nada.

Enfim, o chão.

Sem eternidade.
Sem metáfora.
Sem poesia.
Sem luz.
Sem ar.

Vazio.

E, de repente,
o ar,
a luz,
o cheiro do café,
talvez um pão com manteiga,
a dor no corpo,
o ipê aceso na janela
e as poucas horas vagas.

Uma nova manhã
com o mesmo vento no rosto,
mas sem promessas de eternidade —

apenas manhã.

Pensar que chamava de medíocre
quem amava a vida simples:
sem perguntas,
sem vertigem,
sem risco.

Apenas vida.

Não sabia — nem queria saber —
quanto abismo seria preciso
para voltar à superfície.

Foi quando
a dor sentou-se à mesa
e pediu um café.

Pouco falou.

Seu ritmo era o da respiração,
não o da urgência.

Aprendi.

Sem pressa,
as palavras já não doíam.

Pude, enfim,
ler o poema inteiro.

O abismo de antes
pareceu raso.

Rasteiro.

Depois de tanto amor,
de tanta dor,
de tanto abismo,
a mão tremia,
a vista falhava,
mas recebia cada palavra

devagar,
como quem regressa
e reconhece, aos poucos,
a própria casa.

Mudada.
Desgastada.
Ainda casa.

Nas paredes,
as marcas.

Sobre a mesa,
o café.

Mais felicidade.
Menos alegrias.

Troca justa.

Então tudo voltou
ao seu lugar:

a água, à terra;
o pão, à mesa;
o verbo, ao silêncio —

e a vida,
à poesia.


Texto e arte: Rubens Baptista
Publicado na seção Poíesis — arte, filosofia e cotidiano.


Leituras recomendadas

Para continuar a travessia entre dor, poesia, rotina, criação e vida simples, leia também:

  • APAGO
    Um poema sobre esquecimento, memória e permanência interior: apagar não para desaparecer, mas para continuar inteiro.
  • CÍRCULOS
    A tristeza, a repetição e a alegria desatenta aparecem aqui como movimentos próximos da dor que aprende a se reconhecer.
  • Em São Paulo
    Outra meditação poética sobre perda, memória e vida cotidiana: a cidade que muda enquanto o homem desaprende a morar.
  • Autopsicografia, de Fernando Pessoa
    Pessoa ajuda a compreender a dor quando ela se converte em forma: o sentimento atravessado pela linguagem deixa de ser apenas ferida.
  • Um sonho dentro de um sonho: Poe, a areia que escorre e o instante que permanece
    A fragilidade do tempo e a impossibilidade de reter tudo dialogam com a passagem da paixão para a aceitação.
  • Invictus
    Um poema sobre resistência interior, dignidade e domínio de si diante da adversidade.

Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

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