Dom Pedro II e o SOFT POWER: a estratégia que o Brasil ainda não ousou ter

O imperador compreendeu que cultura é poder; dois séculos depois, seguimos exportando encanto e importando método

Em 2025, quando o país voltou a celebrar o nascimento de Dom Pedro II, ocorrido em 2 de dezembro de 1825, a efeméride tornou-se também um contraste. Enquanto o Senado anunciava sessão especial pelos 200 anos do imperador, relatórios internacionais reafirmavam que o mundo continua consumindo Brasil com apetite constante: música, esporte, audiovisual, linguagem, estética, atmosfera. No mesmo ciclo, o país apareceu na 31ª posição do Global Soft Power Index e alcançou o 15º lugar no pilar Cultura & Patrimônio. O planeta já entendeu que há densidade cultural aqui, mas, o Brasil ainda hesita e continua capturando menos valor do que poderia.


O nome moderno de um poder antigo

Soft power não é um concurso de simpatia internacional. É engenharia de percepção. É a capacidade de influenciar por atração — reputação, cultura, valores, estilo — e converter essa atração em preferência, turismo, investimento, preço e posicionamento geopolítico.

As pessoas pagam para consumir conteúdo cultural e, magicamente, criam uma enorme simpatia por seus fornecedores. Quantos brasileiros levam consigo a bandeira dos EUA ou do Reino Unido, sem utilizar as cores nacionais? Esse é o poder do soft power, algo que experimentamos no passado com a seleção masculina de futebol.

O conceito apenas deu nome a um mecanismo antigo: impérios governam também pelo imaginário. Da águia romana ao dragão chinês, estamos cercados por símbolos. Quando o imaginário não é administrado, vira paisagem aberta. E paisagem aberta raramente permanece neutra; alguém a organiza, alguém a explora, alguém a monetiza.


O imperador que leu o futuro

Dom Pedro II não falava em soft power, mas agia como se conhecesse o manual. Frequentava bibliotecas europeias, financiava pesquisas, estimulava a fotografia, patrocinava missões científicas e cultivava correspondência intelectual. Não era pose ilustrada; era posicionamento estratégico. Construía sinais públicos de que o Brasil não era apenas território exótico, mas território pensante.

Há ironia nessa comparação. A República nasceu com promessa de modernidade, mas frequentemente deixou o branding nacional à deriva, oscilando entre improviso administrativo e propaganda rasa. Quem quiser uma prova disso, que procure as campanhas publicitárias da Embratur entre os anos 1960 e 1980. Vai entender, literalmente, o que quer dizer “vergonha alheia”. Pagamos caro por isso.

O Brasil e sua cultura continuaram fascinando — apesar do Estado, não por causa dele.


Quando o mundo já percebeu o que o Brasil hesita em assumir

Os números confirmam que essa fascinação não é retórica. Segundo a Brand Finance, no Global Soft Power Index 2025 o Brasil aparece como líder latino-americano e ocupa o 15º lugar em Cultura & Patrimônio.

No plano interno, a economia da cultura e das indústrias criativas movimentou R$ 230,14 bilhões em 2020, equivalentes a 3,11% do PIB brasileiro, conforme dados oficiais divulgados a partir do Observatório Itaú Cultural.

Cultura não é ornamento, é infraestrutura produtiva. Ignorar isso não é descuido intelectual; é um terrível erro estratégico.


O dado que desmonta a caricatura

A Lei Rouanet, frequentemente reduzida a símbolo de disputa ideológica, oferece um dado concreto que desmonta simplificações.

Um estudo de impacto econômico da FGV, divulgado em janeiro de 2026, aponta que, em 2024, o mecanismo movimentou R$ 25,7 bilhões e sustentou 228 mil empregos, com efeito multiplicador estimado em R$ 7,59 para cada R$ 1 investido via renúncia fiscal, além de R$ 1,39 em arrecadação tributária.

O debate adulto não começa na negação do instrumento, mas no aperfeiçoamento de sua governança e na definição de sua ambição estratégica. Ninguém defende a tese de que o Sistema Único de Saúde deva ser demolido, apesar de sua gestão no mínimo questionável. Por que com a cultura deve ser diferente?

A captação oficial de 2024 girou em torno de R$ 2,3 bilhões — recurso finito que exige direção clara, internacionalização planejada e proteção de ativos culturais.


Netflix, o octógono e a diplomacia involuntária

A novela brasileira abriu mercados antes da internet. O streaming colocou produções nacionais ao lado de dramas globais em plataformas como a Netflix. O MMA viveu anos de hegemonia brasileira no Ultimate Fighting Championship. Futebol e Fórmula 1 moldaram arquétipos de talento e coragem. Nada disso foi fruto de uma política integrada; foi talento em estado bruto.

Mas talento sem sistema transforma imagem em commodity cultural: circula, encanta, inspira, porém nem sempre se converte em licenciamento estruturado, cadeias formais robustas e exportação de serviços criativos com marca protegida.

A cultura continua a atravessar fronteiras; o valor nem sempre retorna na mesma proporção.


Estratégia não mata criatividade

A Coreia do Sul não “teve sorte” com a Hallyu. Organizou. Em 2021, as exportações de conteúdo atingiram o recorde de US$ 12,4 bilhões, segundo dados do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo e divulgação institucional do próprio governo coreano. É muita coisa para chamar de coincidência.

O Japão fez o mesmo, com linguagem e burocracia próprias: o Cool Japan foi assumido como estratégia estatal para fortalecer laços e ampliar o “brand power”, com documentos oficiais no âmbito do Cabinet Office. E há um símbolo econômico que casa bem com essa mentalidade de longo prazo: o Japão segue como o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro americano, com US$ 1,202 trilhão em novembro de 2025, segundo dados reportados a partir do sistema TIC do U.S. Treasury. País que pensa em décadas costuma colher por décadas.

O Brasil, por sua vez, continua dividido entre dois equívocos caros: o de achar que cultura é luxo e o de achar que cultura “se resolve sozinha” porque sempre se resolveu. Resolveu, sim. Mas poderia render mais, com menos desgaste e mais soberania.


O backend invisível do soft power

Aqui entra o dilema jurídico-econômico que o debate cultural costuma evitar: sem PI, soft power vira vitrine gratuita.

Direitos autorais, marcas, desenhos industriais, contratos de licenciamento, gestão coletiva, proteção internacional: é isso que transforma influência em receita, e receita em capacidade de reinvestimento. A Convenção de Berna (1886) segue como um pilar dessa arquitetura, garantindo proteção internacional às obras literárias e artísticas por meio do princípio do tratamento nacional.

Sim, uma convenção do final do século XIX que ainda está em vigor e parece ter funcionado — e estar funcionando — muito bem para os grandes players. Em termos práticos: quem não protege, não licencia; quem não licencia, não escala; quem não escala, fomenta o lucro alheio.

E, quando o país não oferece um ecossistema previsível — de segurança jurídica a instrumentos de internacionalização —, o criador individual tenta negociar sozinho contra plataformas, agregadores, distribuidores e mercados inteiros. É a assimetria clássica: o Brasil fornece o símbolo, mas alguém fica com o lucro real.


O bug brasileiro

O Global Soft Power Index 2025 demonstrou que a cultura brasileira é reconhecida e bem ranqueada. A ECIC comprovou que a cultura pesa no PIB e a FGV tirou qualquer dúvida de que o incentivo bem desenhado sustenta muitos empregos. O que falta, então?

Falta fazer o óbvio difícil: integrar cultura, educação, turismo, diplomacia e propriedade intelectual com metas, métricas e continuidade. Falta medir o impacto anual do soft power com seriedade. Falta tratar a internacionalização como política, não como acaso. Falta transformar o “Brasil que o mundo ama” em “Brasil que o mundo ama pagar para ver”.

Difícil? Mas o mundo ama pagar para ver os filmes americanos, os animes japoneses e os doramas coreanos…


Encanto nós já temos. O que falta é método.

Há um momento em que a falta de estratégia deixa de ser inocência e vira desperdício. O Brasil é esse país em que um menino grava um hit no quarto e que pode se transformar em trilha de verão do hemisfério norte. A magia existe.

Dom Pedro II, com todos os limites do seu tempo, entendeu algo que 2026 ainda demora a aceitar: cultura é poder porque organiza o desejo. E o desejo… bem, Napoleão dizia que os homens lutam mais por seus desejos do que por seus interesses. Dito isso…

O Brasil já é uma superpotência cultural ESPONTÂNEA. A tarefa histórica é se tornar uma superpotência cultural ESTRATÉGICA — sem perder a alma, mas deixando de perder o valor.


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