Em São Paulo

Não há mais pardais.
Garoa, não há mais.
Calaram-se as bancas de jornais,
e nem jornais há mais.

Tudo da memória escorre
para o esquecimento;
a mudança não respeita
nem mesmo a dureza do cimento.

Moças apressadas, medo nos rostos.
Menos casas e casais, menos cor,
só prédios altos e assaltos.
Gente sem silêncio para esconder a dor.

Quem sabe da minha cidade?
Quem tem minha idade
passa por ela sem olhar.
Ignora mais um corpo na calçada
e segue sem escutar.
Envelheceu com os prédios
e desaprendeu a morar.

Não percebe os pardais.
Trocou os jornais pelo celular.
E a garoa?

Garoa não há mais.
Lar, já quase não há mais…


Crédito: Rubens Baptista

Nota editorial. A cidade, mesmo em meio à verticalização, ao progresso e ao ganho, transforma-se em território de perda. A ausência dos pardais, da garoa e das bancas de jornais não é apenas nostalgia urbana, mas sinal de uma mudança mais profunda: a memória escorre pelas frestas do cimento, enquanto os homens, também endurecidos, passam a conviver com a dor do próximo sem mais reconhecê-la.

É uma São Paulo mais ocupada do que habitada, menos vivida do que atravessada. Entre prédios altos, assaltos, celulares e corpos ignorados na calçada, a cidade parece crescer enquanto perde sua alma doméstica.

Perceber que ela já foi um lar desloca tudo: já não se trata apenas da cidade que mudou, mas do próprio homem que, envelhecendo com ela, desaprendeu a morar.

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