Da anaciclose de Políbio, passando pelo cristianismo imperial, chegando aos nossos dias: a política ainda veste as mesmas túnicas.
Roma caiu há quinze séculos, mas continua viva. Em 2026, quando democracias cansadas flertam com líderes providenciais e potências disputam a norma do mundo, o velho modelo romano se revela como condutor e solução emocional. O historiador Políbio já havia descrito esse movimento como ciclo natural dos regimes. O cristianismo, ao atravessar o Império, soube usar essa engrenagem. O que está em jogo hoje é saber se aprenderemos com a história ou se apenas abrimos um novo ciclo.
POLÍBIO E O RELÓGIO POLÍTICO QUE NÃO PARA
Políbio, historiador grego do século II a.C., formulou a teoria da anaciclose, o ciclo natural dos regimes políticos. Para ele, os governos nascem saudáveis e envelhecem mal, morrendo para dar início a outro ciclo:
- Monarquia (governo virtuoso)
- Tirania (degeneração do monarca)
- Aristocracia (governo dos melhores)
- Oligarquia (degeneração dos melhores)
- Democracia (governo do povo)
- Oclocracia (governo da multidão manipulada)
→ retorno à monarquia
Para Políbio, esse ciclo era uma lei histórica e funcionava como as leis naturais. A única forma de retardá-lo seria a Constituição Mista, como ele acreditava existir na República Romana: cônsules (elemento monárquico), Senado (aristocrático) e povo (democrático) limitando-se mutuamente.
Essa teoria influenciou diretamente os fundadores dos Estados Unidos e o constitucionalismo moderno, pois, ainda que nem sempre se observe o ciclo completo, é sempre possível enxergar o cansaço simbólico, a crise institucional e a busca pelo salvador.
Pedras que falam mais que códigos
Roma venceu porque ensinou o mundo a ver o poder. Colunas, águias, capitólios, senados. Muito mais do que ornamentos, são linguagem e mensagens de poder. O mármore, os estandartes e os uniformes levaram a mensagem mesmo a quem não sabia ou não queria ler. O chamado soft power romano, além de diplomacia cultural, foi pedagogia visual. Ele mostra como o poder deve parecer, em púrpura imperial.
Por isso, quando líderes falam em “restaurar a grandeza” ou “salvar a civilização”, não estão apenas fazendo política. Estão acionando uma semiótica antiga, que transforma governo em missão e gestão em destino, algo que os romanos aprenderam com os gregos. A República persiste, mas sempre à sombra de um César.
Quando a fé usa estradas
Com Jesus, temos a prova histórica mais delicada dessa engrenagem. Ele nasceu e viveu fora do centro do mundo, mas sabia que sua mensagem precisava alcançá-lo. Escolheu Saulo, transformado em Paulo, cidadão romano e judeu helenizado, para a missão.
Paulo transformou a pregação em logística. Estradas, cidades, cartas, tribunais. Ao apelar a César, deslocou a fé para o coração simbólico do Império. Roma virou palco da Palavra não por conversão imediata, mas por procedimento. O sistema sucumbiria ao próprio sistema, daí a genialidade da escolha.
Com Constantino, a cruz saiu do patíbulo e foi para o estandarte. A religião deixou de ser apenas testemunho e passou a organizar a unidade política. O Concílio de Niceia mostra isso: a teologia também pode ser arquitetura institucional. Não tardaria, e a humanidade veria cruzes no lugar de águias.
Mas a história não terminou aí. Quando Roma foi saqueada, Agostinho escreveu que nenhum império é absoluto. A Cidade de Deus não se confunde com a cidade dos homens. Foi um gesto de maturidade política disfarçado de tratado teológico. Usar a máquina do mundo não significava divinizá-la. Afinal, como disse Jesus, “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Nesse ponto, o argumento se fecha como uma parábola histórica. Roma forneceu estética, norma, rito e centro simbólico. O cristianismo rodou esse sistema a seu favor. E Agostinho ensinou que o sistema não é Deus.
Impérios que se vestem de herança
A Rússia nunca escondeu sua filiação simbólica. Moscou já foi chamada de Terceira Roma. O czar herdou o nome de César. O poder aparece como continuidade histórica, não como mandato provisório. Governa-se com leis, mas também com narrativa civilizatória. Quando o mundo é descrito como decadente, concentrar autoridade parece defesa, não ruptura. Isso explica muito da longevidade de Putin no poder.
Nos Estados Unidos, o dilema também está presente. Fundados para evitar o domínio de um só homem, recorrem à estética clássica para se afirmar como República. Ainda assim, em tempos de crise, cresce a tentação de tratar a exceção como solução.
Roosevelt foi o único presidente dos Estados Unidos a servir por mais de dois mandatos, um feito devido à Segunda Guerra Mundial, que levou à aprovação da 22ª Emenda da Constituição, limitando os presidentes a apenas uma reeleição a partir de então. Mas a leitura de que “a lei foi feita para o homem e não o homem para a lei” (Marcos 2:27) já serviu para muitas mudanças.
A China acrescenta outra camada ao enredo. A disputa contemporânea não é apenas por mercados ou tecnologia, mas por quem define o padrão de legitimidade. Roma venceu porque determinou o que era civilização. Pequim, hoje expansionista, resolveu olhar para o resto do mundo e não pede licença. Impõe sua norma com o peso do silício e do aço, seja com carros elétricos ou com donghua (animações). Ainda que não admita, também se apresenta como candidata a uma nova Roma.
Um mundo com várias Romas antagônicas talvez seja a única e preocupante novidade.
O caso brasileiro: moral no lugar de forma
O Brasil declarou independência, mas não de seu monarca heróico. Seja Getúlio contra as oligarquias, Jânio com a vassoura ou Collor como caçador de marajás, o roteiro se repete porque o sentimento de desconfiança, justificado, não muda.
Quando a democracia é vivida como clube fechado, a esperança se desloca das instituições para o indivíduo. Por isso, músicas como “Brasil”, de Cazuza, permanecem atuais, porque, a cada escândalo, o povo se sente excluído de uma festa sem fim que parece levar ao seu fim.
E, assim, esse mesmo povo passa a votar por catarse, o que não costuma dar bons resultados. É o momento em que a política deixa de ser técnica e vira drama. Políbio descreveria isso como transição. Machado talvez chamasse de ironia histórica.
O império que habita a mente
O verdadeiro império de Roma sempre foi psicológico. Seu software permanece instalado na necessidade humana de ordem visível, justiça encarnada e autoridade com rosto. Democracias maduras não eliminam o herói, tornam-no desnecessário. Infelizmente, as democracias de hoje, como muitos, sofrem do complexo de Peter Pan e se recusam a amadurecer.
Agostinho ajuda a fechar o raciocínio. Impérios são úteis. Organizam estradas, leis, moedas e até concílios. Mas não são absolutos, muito menos eternos. Confundir poder com salvação é erro antigo, desses que sobrevivem às ruínas.
Roma caiu, mas, apesar de sua queda, seu esplendor ainda fascina e seduz, como a luz que nos chega de uma estrela morta. Enquanto a política for percebida como fraude e a lei como privilégio, o ciclo continuará girando e as legiões marchando.
Leituras conectadas
Para quem acompanha esse debate, outras leituras ajudam a ampliar o quadro:
- Softpower e Antropofagia: quem guarda o limiar?
- Hardpower: a guerra invisível da propriedade intelectual militar
- Venezuela, Irã e Cuba, enroscados em cabos e soft power
Rubens Baptista escreve sobre propriedade intelectual, estratégia e cultura.
Editor do Jornal da Propriedade Intelectual.

