Chega de homenagem. Traga o dinheiro! O caso Dandadan × X JAPAN e os limites das homenagens

Polêmica em torno de episódios do anime Dandadan, semelhanças musicais com clássico do X JAPAN e debate sobre quando uma referência deixa de ser tributo e passa a ser violação de direitos autorais.


Quem é quem nesta história?

Dandadan

É um anime de ação sobrenatural, comédia e pancadaria juvenil, baseado no mangá de Yukinobu Tatsu. A obra é sucesso no Japão e no streaming global (Netflix), especialmente entre o público jovem, misturando alienígenas, fantasmas e uma trilha sonora cuidadosamente produzida. Em sua segunda temporada, estreada em julho de 2025, o anime vem apostando forte em cenas musicais.

X JAPAN

Ícone do rock sinfônico japonês, a banda liderada por Yoshiki marcou os anos 1980 e 1990 com visual ousado (visual kei), baladas dramáticas e riffs pesados. A música “Kurenai é um dos hinos da banda e o centro da controvérsia com o anime. Os direitos autorais da canção pertencem à Sony Music Japan, que tem histórico de atuação firme em casos de uso não autorizado.

 Adoniram Barbosa

Não precisa de apresentação. Só de royalties. O cronista do samba paulistano é lembrado por dar voz ao povo com ironia fina. E sua frase — “Chega de homenagem, traga o dinheiro!” —, ainda que de origem incerta, resume perfeitamente casos como este.


“Chega de homenagem. Traga o dinheiro!”

O episódio 18 da segunda temporada de Dandadan, exibido em 8 de agosto de 2025, trouxe uma performance musical que imediatamente despertou comparações com “Kurenai”, um dos maiores sucessos do X JAPAN.
A cena apresentava a banda fictícia HAYASii interpretando a canção “Hunting Soul”. Para os fãs, a semelhança com riffs e atmosfera do clássico do grupo liderado por Yoshiki foi direta demais.


Linha do tempo: do episódio à nota oficial

8 de agosto de 2025 (JST) – Vai ao ar o episódio 18, incluindo a faixa Hunting Soul.

18 de agosto de 2025Yoshiki se manifesta publicamente sobre a falta de comunicação e menciona a consulta a advogados.

22 de agosto de 2025 – A produção de Dandadan divulga pedido de desculpas, reconhecendo falha de comunicação, e informa abertura de negociações sobre direitos. Há menção, inclusive, a futuras colaborações.

22–23 de agosto de 2025 – Fãs notam a remoção temporária da faixa em plataformas como Spotify e Apple Music. O episódio segue disponível sem anúncio de edição ou retirada.


O ponto jurídico: quando o tributo vira infração

O caso ilustra o risco de se caracterizar uma obra derivada não autorizada, especialmente porque a legislação japonesa não prevê uma cláusula de “uso justo” tão ampla quanto a dos EUA.

A Lei de Direitos Autorais do Japão prevê exceção para “citação”, mas impõe três requisitos claros: Finalidade crítica ou informativa; Proporcionalidade e destaque limitado e Identificação da fonte original.

Uma canção semelhante, usada em destaque dentro da narrativa, não se encaixa nesse enquadramento. Além disso, a caracterização visual da banda fictícia também remete ao X JAPAN, levantando discussões sobre uso indevido de imagem ou associação indevida.


A resposta oficial de Dandadan

Na nota publicada em 22 de agosto, o estúdio reconheceu a ausência de diálogo prévio com o X JAPAN;que a intenção era “transmitir a energia da banda”, mas sem a devida explicação e que já estão em curso negociações diretas com Yoshiki, incluindo a possibilidade de parceria

Fontes do setor apontam que a Sony Music Japan, como detentora dos direitos de “Kurenai”, teve papel ativo na pressão jurídica que levou à retratação e à retirada temporária da música “Hunting Soul” dos serviços de streaming musical. A produção optou por manter o episódio no ar, mas evita, até o momento, exibir ou licenciar a trilha separadamente.


Riscos e precedentes na cultura pop

A fronteira entre referência e infração já gerou repercussões no Japão. Projetos como Tokyo Babylon 2021 e No Game No Life enfrentaram retrabalhos e paralisações por questões semelhantes.

Nos EUA o precedente mais notório é o julgamento de Blurred Lines, em que os tribunais reconheceram infração mesmo sem cópia literal, mas apenas por proximidade de estilo musical.

A lição que se extrai: a mera semelhança estilística pode bastar para configurar violação e gerar enormes prejuízos.


Easter Eggs e governança criativa

Homenagens e easter eggs são recursos criativos valiosos, mas exigem gestão jurídica precisa. Para reduzir riscos, recomenda-se:

• Mapear previamente todas as referências inseridas na obra

• Realizar clearance com titulares de direitos

• Optar por colaborações oficiais sempre que a inspiração for direta

No caso em análise, uma colaboração formal entre Dandadan e Yoshiki teria evitado ruídos e poderia até reforçar o engajamento do público.


Audiência e faturamento: por que a homenagem pode custar caro?

Com audiência global e múltiplas fontes de receita, Dandadan se tornou um ativo valioso e, justamente por isso, qualquer risco autoral tem impacto potencial elevado.

Audiência

  • Netflix: 5,4 milhões de views na semana de estreia da 2ª temporada, com presença constante no Top 10 global.
  • Brasil: Alcançou o 2º lugar no ranking nacional da Netflix em 12 de julho de 2025.

 Receita estimada

  • Mangá: +10 milhões de cópias impressas, com estimativa de ¥5,7 bilhões (~US$ 39 milhões) em vendas brutas.
  • Cinema (Evil Eye): arrecadação global de US$ 6,9 milhões.
  • Home-video (Blu-ray JP): ~¥71 milhões (≈ R$ 2,6 milhões) em receita inicial combinada dos quatro primeiros volumes.

No Brasil, o mangá é publicado pela Panini, com preço médio de R$40–45 por volume. O licenciamento internacional é operado majoritariamente via acordos globais, sem detalhamento público de repasses por território.


Tendência: collabs substituem homenagens improvisadas

No cenário atual, marcado por fandoms globais e streaming imediato, qualquer referência é instantaneamente escrutinada. Estúdios e criadores têm preferido colaborações formais a “homenagens arriscadas”, pois, estas últimas podem gerar litígios e desgaste reputacional, o famoso “cancelamento”.


Direito comparado: Japão × Brasil

Enquanto no Japão a exceção é restrita à “citação” em contextos específicos, a legislação brasileira (Lei nº 9.610/98, art. 47) admite paródias, desde que não desmereçam a obra original.

Ainda assim, a regra prática é a mesma: quanto maior a semelhança, maior o risco jurídico se não houver autorização prévia dos titulares dos direitos.


Conclusão

No fim das contas, homenagem, tributo, referência ou easter egg — sem contrato prévio, tudo isso vira fogos de artifício de curta duração: brilha, emociona, mas logo dá lugar à fumaça do processo, recheado de papel timbrado e jurisprudência. A lição é simples: criatividade encanta, mas quem sustenta a arte, de fato, ainda é o velho e bom royalty. E cá entre nós, Adoniran já tinha cantado a pedra: poucas frases soam tão atuais quanto “Chega de homenagem, traga o dinheiro!”.


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