Como infraestrutura digital e algoritmos viraram armas geopolíticas
No início de 2026, enquanto a crise venezuelana começa a reconfigurar o Caribe, outro campo de batalha se impõe de forma silenciosa e persistente. Longe dos quartéis e das chancelarias, cabos submarinos, plataformas digitais e algoritmos proprietários seguem definindo influência, velocidade e até a violência das revoltas, além da fragilidade de Estados nacionais. Venezuela, Irã e Cuba sediam disputas simbólicas, informacionais e, sobretudo, de acesso — tudo profundamente ligado à PROPRIEDADE INTELECTUAL.
Este cenário revela como infraestrutura digital, algoritmos proprietários e propriedade intelectual passaram a ocupar o centro da geopolítica contemporânea — não como metáfora, mas como mecanismo de poder.
Venezuela adoeceu, mas Cuba é quem está com febre
A relação entre Venezuela e Cuba sempre foi mais densa do que o intercâmbio de petróleo ou a troca de expertise militar. Há uma dependência estrutural menos visível: Cuba recebe parcela relevante de sua conectividade internacional pelo cabo ALBA-1, que parte da Venezuela. Quando Caracas e Havana decidiram lançá-lo pelo Caribe, o gesto foi mais político do que técnico. Reduzir a dependência de rotas controladas por terceiros significava ganhar autonomia de tráfego e circular informação em termos próprios.
Essa autonomia, contudo, nunca foi absoluta. A crise venezuelana torna esse limite evidente. Cuba não pode desligar o ALBA-1 sem desligar parte do país. Quando a Venezuela adoece, Cuba não demora a apresentar febre.
O que é, afinal, o cabo ALBA-1
O ALBA-1 é um cabo submarino de fibra óptica instalado no início da década passada para conectar diretamente Venezuela e Cuba, com extensão pelo Caribe. Seu nome é alusivo à Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos, que teria sido criado em oposição à ALCA – Área de Livre Comércio das Américas, que foi defendida pelos EUA. À época, a instalação desse cabo submarino foi anunciada como um marco de autonomia tecnológica para a Cuba, que até então dependia quase exclusivamente de enlaces via satélite — caros, lentos e facilmente monitoráveis.
Do ponto de vista técnico, o cabo cumpriu parte da promessa. Ampliou a capacidade de tráfego de dados e reduziu custos operacionais. Politicamente, tornou-se um símbolo da parceria estratégica entre Havana e Caracas, um elo físico de uma aliança que sempre foi mais ideológica do que comercial.
O ALBA-1, apesar de relevante, não é o único cabo a servir Cuba. Existe outra rota submarina importante, operada por empresas europeias, com participação direta da França. É justamente aí que a fragilidade se evidencia.
A França é aliada histórica dos Estados Unidos, integrada ao mesmo ecossistema regulatório, financeiro e político que estrutura o Atlântico Norte. Na prática, isso significa que parcela significativa da conectividade cubana depende de infraestruturas localizadas em países alinhados a Washington. O ALBA-1 oferecia uma alternativa, mas é difícil ignorar o destino recente de outras apostas estratégicas venezuelanas.
Cuba navega conectada, porém exposta — e dependente da boa vontade de quem nem sempre demonstra paciência com desalinhamentos estratégicos.
Embora essas infraestruturas não estejam fora do direito — operam sob regimes de concessão, contratos internacionais, normas técnicas e lógicas rigorosas de compliance —, nada impede que sirvam, mansa e publicamente, à velha lei do mais forte. A soberania digital deixa de ser apenas ficta para se tornar uma ilusão funcional.
Infraestrutura não é neutralidade
Cabos não fazem política, mas determinam quem pode fazê-la. Eles definem rotas, intermediações, pontos de controle e, sobretudo, dependências. No mundo digital, infraestrutura é poder estrutural. Quem controla o caminho raramente encontra obstáculos, caso decida controlar também a mensagem.
O que trafega por esses cabos não é abstrato. São vídeos, textos, transmissões ao vivo, obras protegidas por direitos autorais, conteúdos sujeitos a licenciamento, bloqueios e políticas de plataforma. A soberania técnica prometida por uma fibra óptica encontra limites quando o espaço decisivo da narrativa está nas redes sociais e nos serviços digitais controlados por terceiros.
A enorme maioria dos países do mundo vive, como Cuba, uma soberania parcial. Consegue transmitir, mas não governa o ambiente em que sua voz circula — nem a forma como é recebida. Com os algoritmos, essa assimetria apenas se aprofunda.
O soft power depois do algoritmo
O conceito de soft power, formulado por Joseph Nye, sempre esteve ligado à capacidade de atração cultural e à legitimidade moral. No século XXI, essa atração passou a ser mediada por sistemas que Nye não chegou a enfrentar: algoritmos de recomendação, modelos de engajamento, inteligência artificial.
Hoje, o que ganha relevância não é apenas o conteúdo, mas a forma como ele é entregue. Plataformas privadas decidem o alcance de uma mensagem com base em critérios opacos, protegidos como propriedade intelectual. O poder de influência deixou de ser exclusivamente estatal e passou a depender de arquiteturas digitais que não respondem a eleitores nem a constituições, construindo manadas informacionais e direcionando-as conforme seus próprios interesses.
Para quem está do outro lado da tela, o algoritmo não parece poder. Justamente por isso ele o é. Trata-se do poder que não se anuncia, que não se sente, que faz crer que a ideia sempre foi sua.
Venezuela, humor e o risco do descrédito
Quando a liderança venezuelana passou a usar redes sociais para ironizar adversários, explorando formatos curtos e virais, o gesto foi lido como ousadia comunicacional. Ao recorrer a plataformas como o TikTok, de origem chinesa, o país apostou no soft power algorítmico: rápido, informal, emocional.
No curto prazo, a estratégia gera visibilidade. No médio prazo, cobra seu preço. A narrativa escapa do controle do emissor e passa a depender das regras de uma empresa estrangeira, sujeita a pressões políticas, comerciais e regulatórias. Quando a ironia começa a corroer a autoridade simbólica do outro lado, o conflito tende a abandonar o campo da comunicação.
Impérios toleram mal o riso quando ele deixa de ser folclore e passa a funcionar como erosão de poder.
Irã: a revolta amplificada
No Irã, o papel dos algoritmos é ainda mais sensível. As crises recentes mostram como protestos locais se tornam globais em minutos. Vídeos gravados por cidadãos comuns ganham projeção internacional não por decisão editorial, mas porque sistemas automatizados identificam ali retenção de atenção, emoção e potencial viral.
Esse processo altera profundamente a dinâmica do conflito. A rua deixa de ser apenas iraniana. Ela passa a existir no feed global. O governo enfrenta não só manifestantes, mas uma arena simbólica internacional, moldada por plataformas que decidem o que permanece visível — e o que desaparece.
Há aqui uma camada jurídica decisiva. Cada postagem envolve direitos autorais, políticas de uso, remoções automatizadas e bloqueios seletivos. A liberdade de expressão passa a ser mediada por contratos privados e por códigos protegidos como segredo industrial. Se Cuba sofre pela dependência e a Venezuela pelo excesso de exposição, o Irã vive o colapso entre esses dois extremos. O soft power das revoltas depende de infraestruturas que não pertencem aos revoltosos.
A propriedade intelectual como fronteira e a erosão do direito internacional
Infraestrutura informacional, algoritmos e plataformas são ativos privados, protegidos por regimes sofisticados de propriedade intelectual, sediados em países ciosos desse sistema que lhes garante dinheiro e poder — nem sempre nessa ordem.
Enquanto esse sistema jurídico se solidifica e se expande, outro parece seguir no sentido oposto. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual mantém sua relevância técnica e institucional, enquanto organismos centrais do direito internacional humanitário e de contenção de conflitos revelam sinais evidentes de esgotamento estrutural. O poder de veto, a seletividade na aplicação de normas e a ausência de mecanismos eficazes de coerção tornaram-se parte do problema.
O direito internacional, tal como concebido no pós-guerra, vem perdendo capacidade de contenção há pelo menos uma década. A sucessão de violações abertas — na Ucrânia, na Faixa de Gaza, na Síria, no Iêmen e na própria Venezuela — expôs algo que já não se disfarça: normas existem, mas a capacidade de fazê-las valer tornou-se profundamente assimétrica.
A Organização das Nações Unidas, pensada como fórum de equilíbrio, observa esses conflitos com resoluções que frequentemente não saem do papel, vetos previsíveis e uma retórica que já não constrange quem dispõe de força material suficiente para ignorá-la. O sistema segue funcionando, mas sua autoridade simbólica se desgasta a cada exceção não punida.
Esse enfraquecimento não ocorre no vazio. Ele coincide com a concentração das infraestruturas críticas — cabos submarinos, constelações de satélites, fazendas de servidores, plataformas digitais — justamente nas mãos das potências que já detêm o hard power militar, financeiro e tecnológico.
Quando o hard power encontra o algoritmo
O resultado é um deslocamento silencioso do eixo de poder. Quem controla a infraestrutura controla não apenas o fluxo físico da informação, mas também seus filtros, prioridades e silêncios. Controla o discurso e, em cenários extremos, pode interferir diretamente em infraestruturas físicas críticas: interromper sistemas energéticos, comprometer redes industriais, hackear veículos, usinas — e, sim, fazer cair um avião.
O direito internacional regula fronteiras, tratados e conflitos armados, mas ainda não conseguiu alcançar esse território híbrido, onde o poder se exerce por código, não por decreto.
Cabos e satélites não são neutros. Algoritmos tampouco. Quando esses ativos se concentram nas mãos de poucos Estados e de grandes corporações alinhadas a eles, cria-se uma assimetria inédita: o mesmo ator que dispõe da força militar controla também o meio pelo qual o mundo percebe essa força. Nunca foi tão fácil vencer uma guerra sem que ela pareça guerra.
Nesse ambiente, fatos transformam-se em disputas narrativas. O que não aparece no feed tende a não existir politicamente. O que aparece distorcido gera reações igualmente distorcidas. O direito internacional, pensado para um mundo analógico, encontra dificuldade para operar em um espaço onde o poder circula em silêncio.
Estamos muito perto de universo de Orwell
Talvez por isso a sensação difusa de que estamos mais próximos de 1984 do que muitos imaginavam. Não pelo controle explícito, mas pela sutileza. Não pela imposição direta da linguagem, mas pela indução algorítmica do vocabulário, das imagens e dos enquadramentos possíveis.
Não se trata mais de proibir palavras, mas de torná-las irrelevantes. A censura contemporânea não precisa interditar ideias; basta enterrá-las sob camadas de ruído. A novilíngua de Orwell talvez já não seja necessária como gramática formal, posto que já opera como código.
O eco que permanece
Talvez a grande lição deste começo de ano seja ainda mais incômoda do que parecia. O poder já não se anuncia apenas em comunicados oficiais ou demonstrações militares. Ele se exerce na arquitetura invisível que decide o que pode ser dito, visto e lembrado.
Entre o fundo do mar, a órbita dos satélites e a lógica dos algoritmos, a geopolítica da propriedade intelectual se consolida como uma das forças centrais do nosso tempo — silenciosa, assimétrica e profundamente eficaz.
Num mundo em que o direito internacional enfraquece e o espaço público é mediado por códigos privados, a pergunta deixa de ser quem controla o território. Passa a ser outra, mais difícil: quem ainda controla o sentido das palavras — e quem decide quais delas merecem existir?
Estas matérias ajudam a ampliar o quadro:
- OpenAI, Disney, Japão, bolhas e melancias — Sobre a reorganização da propriedade intelectual na era da inteligência artificial e algoritmos como infraestrutura estratégica.
- Softpower e Antropofagia: quem guarda o limiar? — Uma reflexão ampliada sobre soft power e narrativas simbólicas no sistema internacional.
- PROPRIEDADE INTELECTUAL — A GARANTIA INVISÍVEL — Explora a PI como ativo econômico e garantia financeira, conectando direito e mercado.
- HARDPOWER – A guerra invisível da propriedade intelectual militar — Perspectiva sobre tecnologia, soberania e PI em contextos de defesa.
- Gracyovos: nasceu rápido e morreu ainda mais rápido — Uma analogia sobre mercados, marca e dinâmica de tempo na cultura digital.
Rubens Baptista escreve sobre propriedade intelectual, estratégia e cultura.

