Não há mais pardais.
Garoa, não há mais.
Calaram-se as bancas de jornais,
e nem jornais há mais.
Tudo da memória escorre
para o esquecimento;
a mudança não respeita
nem mesmo a dureza do cimento.
Moças apressadas, medo nos rostos.
Menos casas e casais, menos cor,
só prédios altos e assaltos.
Gente sem silêncio para esconder a dor.
Quem sabe da minha cidade?
Quem tem minha idade
passa por ela sem olhar.
Ignora mais um corpo na calçada
e segue sem escutar.
Envelheceu com os prédios
e desaprendeu a morar.
Não percebe os pardais.
Trocou os jornais pelo celular.
E a garoa?
Garoa não há mais.
Lar, já quase não há mais…
Crédito: Rubens Baptista
Nota editorial. A cidade, mesmo em meio à verticalização, ao progresso e ao ganho, transforma-se em território de perda. A ausência dos pardais, da garoa e das bancas de jornais não é apenas nostalgia urbana, mas sinal de uma mudança mais profunda: a memória escorre pelas frestas do cimento, enquanto os homens, também endurecidos, passam a conviver com a dor do próximo sem mais reconhecê-la.
É uma São Paulo mais ocupada do que habitada, menos vivida do que atravessada. Entre prédios altos, assaltos, celulares e corpos ignorados na calçada, a cidade parece crescer enquanto perde sua alma doméstica.
Perceber que ela já foi um lar desloca tudo: já não se trata apenas da cidade que mudou, mas do próprio homem que, envelhecendo com ela, desaprendeu a morar.
Leituras conectadas
Para continuar a travessia entre cidade, memória, tempo, perda e permanência, leia também:
- A Tabacaria
Álvaro de Campos diante da janela, da rua e da consciência moderna: uma leitura natural para quem atravessa São Paulo pela melancolia urbana. - Um sonho dentro de um sonho: Poe, a areia que escorre e o instante que permanece
A memória como areia que escapa: uma ponte direta com o verso “tudo da memória escorre para o esquecimento”. - Jogral da Miséria Humana
Vozes literárias diante da perda, da lucidez e da condição humana. - Os que sentem demais
Para quem compreende que a poesia nem sempre explica: às vezes apenas recolhe o excesso do mundo. - O Dinheiro, o Poder e a Fonte da Prosperidade
Uma reflexão sobre poder, matéria e sentido — contraponto ensaístico à cidade que cresce, mas perde a dimensão do lar. - Biopirataria e Propriedade Intelectual: o “Escudo Brasil”
Outra leitura sobre território, perda e preservação: aqui, não da cidade íntima, mas do patrimônio brasileiro.
Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

