Os que sentem demais

Poesia, dor e a difícil aprendizagem da vida simples


No início,
poesia é para os apaixonados
e para os masoquistas.

Não para quem quer entender a vida,
mas para quem deseja senti-la —
celebrando a dor
de cada dia.

Convertendo dor em forma,
sede em palavra,
abismo em música,
e cada gemido
em poesia.

O apaixonado sofre e chora,
continua buscando o amor.

O masoquista sofre e sorri,
encontrando na dor
o amor.

Amor que apazigua a alma,
silencia a paixão —
e a poesia escorre
pelo chão.

O medíocre ama a vida como ela é:
sem perguntas, sem vertigem,
sem risco.
Apenas vida.

A poesia também está nessa paz do medíocre,
na alegria do pão com manteiga,
do café passando no coador,
na leveza de ser,
mesmo com dor.


A dor da rotina, do dia a dia,
do heroísmo das contas pagas,
das poucas horas vagas.

A poesia dos pequenos gestos
passa despercebida —
porque o bom da vida
é a vida.

Foi quando, um dia,
a dor se tornou amiga.

Sentou-se à mesa
e pediu um café.

O ritmo é o da respiração,
não o da urgência.

Quem sofria com as palavras,
agora sorri
e lê o poema inteiro.

Não há mais grito,
nem mais eternidade,
apenas a mudança
brincando com a cidade.

O pão com manteiga,
o café com leite,
o ipê em flor,
o vento no rosto,
a alegria de outra manhã,
mais uma vida.

Uma vida nasce
e morre todo dia —
paixão, amor, tristeza e alegria.

Um ser que é em si
todos os dias,
sem deixar de ser
um só dia.


Depois de tanto amor
e tanto abismo,
a mão que escreve treme,
a vista que lê falha,
mas persiste,
feliz em sua calma.

A dor cumpriu seu papel:
ensinou a escutar.

O amor cumpriu o seu papel:
ensinou a calar.

Agora,
cada palavra vem devagar,
como quem retorna
de uma longa viagem
e reconhece aos poucos
sua casa.

Casa mudada,
mas não pede mais reforma.

Nas paredes desgastadas,
histórias.

Acolhida
para quem foi além de si —
honrando a vida
na rotina boa e surda,
na luta boa e muda.

No fim,
tudo muda…

A água volta à terra,
o pão à mesa,
o verbo ao silêncio —
e a poesia,
à vida.

Porque o bom da vida
é a vida.


Texto e arte: Rubens Baptista
Publicado na seção Poíesis — arte, filosofia e cotidiano.


Leituras recomendadas

Para continuar a travessia entre dor, poesia, rotina, criação e vida simples, leia também:

  • APAGO
    Um poema sobre esquecimento, memória e permanência interior: apagar não para desaparecer, mas para continuar inteiro.
  • CÍRCULOS
    A tristeza, a repetição e a alegria desatenta aparecem aqui como movimentos próximos da dor que aprende a se reconhecer.
  • Em São Paulo
    Outra meditação poética sobre perda, memória e vida cotidiana: a cidade que muda enquanto o homem desaprende a morar.
  • Autopsicografia, de Fernando Pessoa
    Pessoa ajuda a compreender a dor quando ela se converte em forma: o sentimento atravessado pela linguagem deixa de ser apenas ferida.
  • Um sonho dentro de um sonho: Poe, a areia que escorre e o instante que permanece
    A fragilidade do tempo e a impossibilidade de reter tudo dialogam com a passagem da paixão para a aceitação.
  • Invictus
    Um poema sobre resistência interior, dignidade e domínio de si diante da adversidade.

Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

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