Apago

Esquecer para permanecer: apagar o que dói sem permitir que, com a memória, desapareça também quem somos.

Apago o que quero esquecer,
apago o que quero guardar.
Apago o que ainda posso ver,
apago para desamar.

Apago para não me perder,
apago para não voltar lá.

Apago, não para desaparecer,
mas para ser inteiro
do lado de cá.


Texto e arte: Rubens Baptista
Publicado originalmente na seção Poíesis — Revista de arte, filosofia e cotidiano.


Leituras recomendadas

Para continuar a travessia entre memória, esquecimento, dor, permanência e criação, leia também:

  • Um sonho dentro de um sonho: Poe, a areia que escorre e o instante que permanece
    A areia que escorre entre os dedos amplia o diálogo de “Apago” com o tempo, a perda e a impossibilidade de reter tudo o que foi vivido.
  • Autopsicografia, de Fernando Pessoa
    Pessoa ajuda a pensar a dor que se transforma em forma: aquilo que fere, quando atravessado pela linguagem, deixa de ser apenas ferida e passa a ser criação.
  • Invictus
    Um poema sobre resistência interior, dignidade e domínio de si. Leitura complementar para o gesto de quem apaga não para sumir, mas para permanecer inteiro.
  • Os que sentem demais
    Uma reflexão poética sobre intensidade, sofrimento e sensibilidade. Território próximo daquele em que “Apago” escolhe esquecer para continuar sendo.
  • Círculos
    A repetição da dor e a dificuldade de sair dos próprios ciclos encontram aqui uma leitura vizinha ao movimento de apagar para não voltar ao mesmo lugar.
  • A Supremacia Absoluta de Cristo
    Uma leitura mais ampla sobre mente, tentação, excesso e libertação interior. Caminho possível para quem lê “Apago” como gesto de limpeza espiritual.

Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

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