Os ídolos que carregamos

Há ídolos que precisam de pedra, metal e altar. Os mais perigosos, porém, dispensam imagens. Instalam-se no coração e ali recebem aquilo que pertence somente a Deus: confiança última, obediência incondicional, temor absoluto e a palavra final sobre nossa identidade e nossas escolhas.

A Bíblia não reduz a idolatria a gestos exteriores. Os profetas já denunciavam a troca do Criador pela criatura; os sábios judeus perceberam que essa troca também pode acontecer dentro do homem; o Novo Testamento conservou essa estrutura e a colocou sob uma pergunta decisiva: quem, de fato, comanda nossa consciência?

É nesse ponto que orgulho, ira e medo se encontram. A cultura contemporânea pode confundir orgulho com autoestima, ira com autenticidade e medo com prudência. O orgulho atribui ao próprio homem a autoria absoluta de suas realizações. A ira transforma sua vontade em lei ou concede ao ofensor poder sobre sua história. O medo eleva a ameaça à condição de soberana do futuro.

As três paixões são diferentes, mas repetem a estrutura da idolatria: uma realidade relativa é tratada como absoluta.

Ídolos sem rosto

Avodah zarah é, literalmente, “culto estranho” e designa a adoração prestada a outra divindade. Maimônides, contudo, oferece uma observação fundamental sobre sua origem. Segundo ele, a idolatria não começou necessariamente com a negação de Deus. Os homens ainda reconheciam o Criador, mas passaram a honrar estrelas e forças intermediárias, imaginando que elas possuíam poder próprio para distribuir benefícios. Pouco a pouco, o instrumento tomou o lugar da fonte. (Maimônides, Mishné Torá, Leis da Idolatria 1:1–2 — edição brasileira).

Essa descrição permite compreender a idolatria interior. O idólatra pode continuar dizendo que acredita em Deus e, ao mesmo tempo, viver como se o dinheiro, a reputação, o governante, o concorrente, o agressor ou seu próprio talento fossem poderes independentes.

O Tanya, obra central do hassidismo Chabad, leva essa ideia ao plano espiritual: se nenhuma criatura possui autonomia absoluta diante de Deus, todo pecado contém um gesto de falsa independência. Atribuir poder último a uma realidade criada reproduz, interiormente, a lógica da idolatria. (Tanya, cap. 24 – Ed. Brasileira.)

Paulo descreve o mesmo movimento como a troca da verdade pela mentira e o serviço da criatura em lugar do Criador. Antes da imagem exterior, há uma desordem do coração: Deus deixa de ser glorificado, a gratidão desaparece e a criatura é elevada. Romanos 1:21–25

Uma pequena parábola pode ilustrar o processo.

Um rei entregou seu selo a um servidor para que executasse ordens em seu nome. Com o tempo, o homem passou a admirar o respeito que o selo produzia. Primeiro esqueceu-se de mencionar o rei. Depois começou a assinar em nome próprio. Por fim, acreditou que a autoridade sempre lhe pertencera.

O servidor realmente carregava o selo. Seu erro não estava em reconhecer a autoridade que exercia, mas em esquecer de quem a recebera e a quem representava. A Escritura apresenta o ser humano como um mordomo, administrador dos dons recebidos e, no Novo Testamento, o discípulo de Cristo como seu embaixador: a autoridade é real, mas derivada. 2 Coríntios 5:20

Esse é o terreno comum das três idolatrias interiores:

PaixãoAfirmação interiorO que é absolutizado
Orgulho“Sou a origem do que tenho e do que sou”O próprio eu
Ira“Minha vontade deveria prevalecer”O ego ferido
Ressentimento“O ofensor determinou minha história”A pessoa que feriu
Medo“A ameaça governa meu futuro”O perigo ou o opressor

O orgulho: quando a criatura reivindica a autoria

Deuteronômio 8 descreve o orgulho como uma doença da memória. Depois de atravessar o deserto, estabelecer-se e prosperar, Moisés lembra ao povo de Israel: “Portanto, não pensem: “A minha força e o poder do meu braço me conseguiram estas riquezas.” Pelo contrário, lembrem-se do SENHOR, seu Deus, porque é ele quem lhes dá força para conseguir riquezas; para confirmar a sua aliança, que, sob juramento, prometeu aos pais de vocês, como hoje se vê.Deuteronômio 8:11–18

A advertência não nega o esforço humano; recoloca-o em sua medida: é Deus quem concede a capacidade de produzir.

O orgulho nasce quando uma afirmação verdadeira — “eu trabalhei” — se transforma em outra, falsa: “sou a causa suficiente de tudo o que alcancei”. O homem se esquece de que não produziu sua existência, inteligência, saúde, oportunidades, tempo histórico nem as pessoas que participaram de seu caminho.

Por isso, o Talmude afirma que a arrogância se assemelha à negação do próprio fundamento da fé. Também compara o orgulhoso a alguém que construiu um altar particular. O “eu” deixa de ser administrador dos dons e se converte no lugar onde a glória é depositada. Talmude, Sotá 4b–5a — exposição em português

Paulo formula a pergunta que desmonta essa pretensão: “O que você tem que não tenha recebido?1 Coríntios 4:7

Reconhecer que tudo foi recebido não elimina a responsabilidade. Ao contrário, aumenta-a. Um talento recebido não deve ser negado, enterrado ou utilizado para humilhar os demais. Deve ser administrado, pois, dele haverá de se prestar conta.

Jesus expõe uma forma particularmente religiosa de orgulho na parábola do fariseu e do publicano. Os dois sobem ao templo. O fariseu enumera suas práticas e agradece por não ser como os outros. O publicano apenas pede misericórdia. Jesus observa que o primeiro “orava de si para si mesmo”. Deus aparecia em sua oração, mas o verdadeiro objeto de contemplação era sua própria superioridade, por isso, conclui: “Digo a vocês que este desceu justificado para a sua casa, e não aquele. Porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado“. Lucas 18:9–14

É possível falar com Deus e continuar adorando a própria imagem, como também é possível — e tão reprovável quanto — disfarçar a soberba de humildade, a ‘falsa modéstia’.

A humildade bíblica não consiste em declarar inexistentes os próprios dons. Moisés conhecia sua missão e sua capacidade e, mesmo assim, é descrito como o mais humilde dos homens. Humildade é verdade: sei o que recebi, conheço a responsabilidade que acompanha o dom e não transformo capacidade em superioridade inata.

Sócrates se torna aqui um interlocutor útil. Na Apologia, o oráculo de Delfos declara que ninguém era mais sábio que ele. Sócrates então examina políticos, poetas e artesãos e percebe que muitos julgavam saber o que não sabiam. Sua superioridade, se alguma havia, consistia em não confundir ignorância com conhecimento. A humildade socrática não é autodepreciação, mas lucidez diante dos limites do próprio saber.

O Novo Testamento encontra em Cristo a forma perfeita dessa humildade. Filipenses 2 não apresenta um Cristo sem identidade, mas alguém que não utiliza sua condição em benefício próprio. Ele assume a forma de servo e obedece até a cruz, não percorre caminho diferente daquele apontado pelo Pai. Aquele que conhece verdadeiramente quem é já não precisa transformar sua grandeza em dominação. Filipenses 2:5‑11

O movimento do orgulho é elevar-se para ser servido. O movimento de Cristo é esvaziar-se e servir; a exaltação pertence ao Pai.

A ira: o trono da vontade ferida

A primeira grande cena bíblica de ira humana aparece em Gênesis 4. Caim se enfurece porque a oferta de Abel é recebida de maneira diferente da sua. Deus não começa condenando-o; pergunta: “Por que você anda irritado?” Em seguida, adverte que o pecado está à porta e deseja dominá-lo. Gênesis 4:5–8

A ira chega como visitante, mas, se não for contida, torna-se dona da casa. Caim ainda poderia governá-la. Quando deixa de fazê-lo, o irmão passa a carregar o peso de uma disputa que, inicialmente, ocorria dentro dele.

O Talmude compara ao idólatra aquele que, dominado pela ira, destrói objetos. O impulso se converte em um “deus estranho” dentro do homem: hoje manda quebrar; amanhã exigirá algo mais grave. Sob seu domínio, a pessoa sacrifica discernimento, palavras, vínculos e, algumas vezes, a própria liberdade. Talmude, Shabat 105b — exposição em português

Outra passagem talmúdica ensina que, quando um sábio se entrega à ira, sua sabedoria o abandona; quando um profeta se entrega a ela, sua profecia se afasta. A inteligência não desaparece, mas deixa de governar. Talmude, Pessachim 66b — exposição em português

O Tanya acrescenta outra dimensão. Quando alguém nos prejudica e passa a ser tratado como causa absoluta de nossa desgraça, recebe um poder que não possui. O ofensor continua moral e juridicamente responsável por sua escolha; pode e deve responder pelo mal. Mas não se torna senhor da história da vítima. Tanya, Igueret HaKodesh, Epístola 25 — leitura em português

Sartre oferece aqui uma formulação poderosa: não somos apenas aquilo que fizeram de nós; somos também aquilo que fazemos com o que fizeram de nós. Lida como síntese existencial, a frase não apaga a responsabilidade do agressor; recorda que a vítima não precisa entregar a ele a autoria de seu futuro. (Jean-Paul Sartre, formulação associada a Saint Genet: ator e mártir.)

Essa formulação é especialmente forte na tradição hassídica. Maimônides apresenta a providência de maneira mais filosófica e não exige que toda ofensa seja compreendida como decreto individual. As correntes diferem quanto ao modo de explicar o acontecimento, mas convergem no diagnóstico ético: entregar-se à ira permite que o mal exterior passe a governar o interior.

Uma parábola tradicional oferece uma imagem simples:

Um cão foi atingido por uma pedra. Furioso, correu atrás dela e começou a mordê-la.
Um sábio que observava a cena disse:
— O animal sente a dor, mas não enxerga a mão que lançou a pedra. Por isso luta contra o instrumento como se ele fosse a causa de tudo.
Assim também age o homem dominado pelo ressentimento: não apenas reconhece a culpa daquele que o feriu, mas lhe entrega um poder que criatura alguma possui — o poder de governar sua paz, seu caráter e sua história.

Essa é uma das formas mais silenciosas de idolatria: odiamos alguém e, por odiá-lo, mantemo-lo permanentemente no centro, em um lugar que apenas poderia ser ocupado por Deus.

O Novo Testamento não afirma que toda indignação seja pecado. “Fiquem irados e não pequem”, escreve Paulo. A advertência vem logo depois: não permitam que a ira permaneça e não deem lugar ao diabo. Efésios 4:26–27

Aristóteles ajuda a precisar essa distinção. Na Ética a Nicômaco, a virtude não é um ponto matemático idêntico para todos, mas a mediania relativa a nós, discernida pela razão prática. No caso da ira, a virtude correspondente é a brandura ou mansidão (praotēs): indignar-se com as pessoas certas, pelas razões certas, do modo e pelo tempo adequados. Excesso e deficiência não são “pecados” no vocabulário aristotélico, mas vícios que deformam a resposta moral. Aristóteles, Ética a Nicômaco, livros II e IV — edição em português

A virtude consiste em escolher a justa medida relativa a nós, determinada pela razão do homem dotado de sabedoria prática. (Aristóteles, Ética a Nicômaco, II.6, 1106b–1107a; trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim, São Paulo, Abril Cultural, 1973.)

Jesus também se indigna diante da dureza daqueles que preferiam preservar uma controvérsia a ver um homem curado. Sua indignação aparece unida à tristeza e produz restauração, não vingança. Marcos 3:5

A diferença não está apenas na intensidade, mas na finalidade. A indignação moral procura proteger, corrigir e restaurar. Na purificação do Templo, Jesus confronta a profanação do lugar de oração; sua ação profética não é descrita como prazer em ferir, mas como zelo pela casa do Pai. João 2:13–17 A ira egoica, ao contrário, pretende ferir, humilhar e saborear a condenação. Por isso, Tiago adverte que “a ira humana não produz a justiça de Deus”. Tiago 1:19–21

Perdoar não significa chamar o mal de bem, impedir a proteção da vítima ou abolir a justiça. Significa recusar ao agressor o direito de determinar nosso caráter e destino. Romanos 12 proíbe a vingança pessoal, não a justiça: o mal deve ser vencido sem que nos transforme em sua continuação. Romanos 12:17–21

Não podemos permitir que o mal nos molde à sua própria imagem; do contrário, apenas o prolongaremos.

O medo: quando a ameaça recebe a palavra final

O medo é mais ambíguo. Pode ser reação natural, prudência ou reverência. O problema não está em perceber o perigo, mas em dobrar-se a ele.

Isaías pergunta como Israel pode temer continuamente um homem mortal e esquecer-se de seu Criador. Provérbios afirma que o temor do homem arma uma cilada. O medo captura a liberdade quando passamos a obedecer não ao que é verdadeiro ou justo, mas àquilo que evita rejeição, perda ou sofrimento. Isaías 51:12–13 | Provérbios 29:25

Saul fornece um exemplo direto. Ao reconhecer sua desobediência, declara a Samuel: “Temi o povo e dei ouvidos à voz deles.” 1 Samuel 15:24

Aquilo que mais tememos frequentemente determina a voz a que obedecemos.

Bahya ibn Paquda, no Chovot HaLevavot, ensina que a confiança em Deus liberta o homem da servidão às criaturas. Nenhuma delas pode beneficiar ou prejudicar de maneira absolutamente independente do Criador.

Isso não autoriza imprudência. A tradição bíblica elogia aquele que vê o perigo e se protege. Confiar em Deus não significa acreditar que nada doloroso acontecerá; significa negar que o perigo possua domínio total sobre o sentido da vida.

Jesus preserva essa hierarquia ao dizer que não devemos temer aqueles cujo poder termina no corpo. Ele reconhece que perseguidores podem matar, mas nega que possam alcançar a totalidade da pessoa. Em seguida, fala dos pardais e dos cabelos contados: o temor de Deus está dentro da providência do Pai, não de um universo de terror. Mateus 10:28–31

A parábola dos talentos mostra outra consequência do medo. O terceiro servo imagina seu senhor apenas como severo, fica amedrontado e enterra o que recebeu. O medo produz paralisia e esterilidade: para não correr o risco de perder, ele deixa de viver responsavelmente. Mateus 25:24–30

O medo torna-se idolátrico quando sua primeira ordem é sempre obedecida.

O Novo Testamento responde a essa servidão com a filiação: “Vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados”, mas o Espírito de adoção, pelo qual clamam “Aba, Pai”. Romanos 8:15–17

O escravo obedece porque teme ser destruído. O filho conserva a reverência, mas aprende a confiar no caráter do Pai. Por isso, a Primeira Carta de João pode afirmar que o amor amadurecido lança fora o medo ligado ao castigo. 1 João 4:18–19

Nelson Mandela afirmou que coragem não é ausência de medo, mas triunfo sobre ele. A preparação pode reduzir o pânico e melhorar nossa resposta, mas a coragem aparece quando, mesmo sentindo medo, escolhemos o bem necessário. No horizonte bíblico, fé em Deus e preparo responsável não competem: ambos capacitam a ação prudente e eficaz. Nelson Mandela, Longa caminhada até a liberdade — citação em português

Como escreveu Miguel de Cervantes em Dom Quixote, “um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que são”. Na tradução de Carlos Alberto Nunes, Shakespeare completa: “Não passam de traidoras nossas dúvidas, que às vezes nos privam do que seria nosso se não tivéssemos o receio de tentar”. Cervantes, Dom Quixote, Parte I, cap. XVIII — texto em português; Shakespeare, Medida por Medida, ato I, cena IV.

Um único ciclo de falsa soberania

Orgulho, ira e medo alimentam-se mutuamente.

Figura 1 — O ciclo da falsa soberania

O orgulho cria uma expectativa de domínio. A realidade inevitavelmente a contraria. A contrariedade produz ira. A ira revela que não somos onipotentes. A descoberta da vulnerabilidade gera medo. Para escapar dele, buscamos mais controle, poder, dinheiro ou reconhecimento — e o orgulho recomeça.

A parábola do rico insensato, narrada por Jesus, reúne quase todo esse movimento em poucas linhas. A colheita foi abundante, mas o homem fala como se fosse sua fonte absoluta: meus produtos, meus celeiros, meus bens, minha alma. Em seguida, tenta utilizar a riqueza para controlar o futuro: “Você tem em depósito muitos bens para muitos anos.” Deus então lhe recorda o limite que seus celeiros não podem remover: naquela noite, sua vida lhe seria pedida. Lucas 12:16–21

Ele não é condenado por planejar nem por possuir. Seu erro é tentar transformar o celeiro em providência. O dinheiro torna-se ídolo quando recebe a tarefa de garantir aquilo que nenhuma criatura pode assegurar: a invulnerabilidade.

Não por acaso, Jesus afirma que ninguém pode servir a Deus e às riquezas e, imediatamente depois, ensina sobre a ansiedade. A riqueza promete eliminar o medo, mas, quando se torna senhor, multiplica as coisas que tememos perder. Mateus 6:24–34

Paulo chama diretamente a avareza de idolatria. Não porque considere o dinheiro seja intrinsecamente mau, mas porque passa a receber confiança, serviço, sacrifício e esperança. Colossenses 3:5

A cruz e a queda dos falsos senhores

No deserto, o diabo oferece a Jesus os reinos e sua glória em troca de adoração. É a proposta de poder sem obediência, reino sem serviço e glória sem cruz. Jesus responde com a Torá: somente Deus deve ser adorado e servido. Mateus 4:8–10

Essa resposta é mantida até o Calvário. A cruz reúne a derrota das três falsas soberanias:

Falsa soberaniaSeu movimentoO movimento de Cristo
OrgulhoElevar-se e ser servidoEsvaziar-se e servir
IraRetribuir e assumir o juízoNão revidar e confiar no justo Juiz
MedoPreservar-se a qualquer custoEntregar-se ao Pai e atravessar a morte
IdolatriaServir à criaturaServir somente a Deus

Filipenses 2 apresenta Cristo assumindo a forma de servo. A Primeira Carta de Pedro o descreve sem revidar insultos ou ameaçar seus agressores, entregando-se “àquele que julga retamente”. 1 Pedro 2:23

No Getsêmani, Jesus não representa uma coragem insensível. Sente tristeza e angústia, pede que o cálice passe, mas não entrega ao medo a decisão final, não se dobra a ele: “Não seja como eu quero, e sim como tu queres.Mateus 26:37–39

Isso corrige uma espiritualidade desumana: sentir medo sem adorá-lo; sentir ira sem servi-la; reconhecer uma capacidade sem divinizar-se. A questão decisiva é quem recebe a palavra final.

O cristianismo, porém, não apresenta Cristo apenas como exemplo moral. A cruz e a ressurreição inauguram nova condição. Hebreus afirma que Cristo veio libertar aqueles que permaneciam escravizados pelo medo da morte. Hebreus 2:14–15

Antes de Cristo, a própria Escritura já oferecia sinais de que a morte não era soberana. Enoque “andou com Deus” e desapareceu, porque Deus o tomou; Hebreus interpreta que ele foi trasladado para não ver a morte. Elias, por sua vez, foi levado ao céu em um redemoinho, sem que o texto bíblico declare sua morte. Gênesis 5:24 | Hebreus 11:5 | 2 Reis 2:11

Enoque e Elias, portanto, pertencem a esta reflexão. Seus relatos testemunham que Deus pode retirar uma pessoa do curso ordinário da morte. Mas, no testemunho cristão, a ressurreição de Jesus afirma algo ainda mais amplo: Cristo entra na morte, atravessa-a e se levanta como “primícias” dos que morreram. Não se trata apenas de uma exceção individual, mas do início da derrota escatológica do último inimigo. 1 Coríntios 15:20–26 | 1 Coríntios 15:54–57

Na cruz, Cristo não oferece apenas um exemplo de coragem diante da morte. Ele se entrega ao Pai, assume o sofrimento humano e, pela ressurreição, rompe o domínio do medo da morte. Por isso, a fé cristã vê no Calvário não uma simples demonstração moral, mas um acontecimento de redenção.

Se a morte não é soberana, o orgulho já não precisa fabricar imortalidade, a ira não precisa vencer imediatamente e o medo não precisa preservar a vida a qualquer preço.

Recolocar cada coisa em sua medida

A fé bíblica não pede que neguemos capacidades, injustiças ou perigos. Ao contrário, pede que os reconheçamos para responder com humildade, domínio próprio e coragem — cada coisa recolocada em sua justa medida.

C. S. Lewis explora a mesma estrutura em Cartas de um diabo a seu aprendiz. Na Carta IX, observa que o mal não cria prazeres próprios; apenas perverte bens criados por Deus, deslocando-os de seu tempo, modo e medida. O problema não está na capacidade, na indignação ou na prudência, mas em sua desordem — quando deixam de servir ao bem e passam a exigir culto.

O orgulho é curado pela gratidão e pela responsabilidade: tenho dons, mas os recebi.

A ira é curada pelo domínio próprio e pela justiça sem vingança: o mal deve ser enfrentado, mas não receberá meu caráter como troféu.

O medo é curado pela prudência e pela confiança: o perigo é real, mas não é soberano.

DesordemVerdade restauradaPrática correspondente
Orgulho“O que tenho foi recebido”Gratidão, serviço e prestação de contas
Ira“Não sou o juiz absoluto”Pausa, verdade, justiça e perdão
Medo“A ameaça não possui a palavra final”Prudência, oração e confiança
Idolatria“Somente Deus é absoluto”Adoração, obediência e amor

No pensamento judaico, o temor do Céu relativiza todos os demais poderes. No Novo Testamento, esse temor amadurece na confiança filial: o Espírito não forma escravos aterrorizados, mas filhos capazes de chamar Deus de Pai.

Talvez tudo possa ser resumido por uma última e breve parábola.

Quatro homens receberam uma lamparina para atravessar a noite. O primeiro vangloriou-se de ter criado a luz. O segundo enfureceu-se com o vento e passou a noite amaldiçoando-o. O terceiro, temendo que a chama se apagasse, recusou-se a caminhar. Apenas o quarto protegeu a luz com as mãos e seguiu adiante, agradecido por tê-la recebido.

A humildade não apaga a chama. A confiança não nega o vento. O domínio da ira não chama a escuridão de luz. A fé apenas impede que o homem adore a si mesmo, o vento ou a noite.

Tudo foi recebido de Deus, que julga retamente. Nenhuma criatura é absoluta, e nem mesmo a morte possui a palavra final.

Afinal, como ensinou Salomão:

Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos.
Provérbios 16:9

Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor.
Provérbios 19:21

Referências e leituras em português

BÍBLIA SAGRADA. Nova Almeida Atualizada (NAA). Sociedade Bíblica do Brasil. As passagens bíblicas estão vinculadas, ao longo do artigo, à interface brasileira do Bible.com.
FONTES JUDAICAS. MAIMÔNIDES, Mishné Torá: Sêfer Hamadá, v. 2, edição bilíngue hebraico-português, Sêfer, 2015 — edição brasileira.
SHNEUR ZALMAN DE LIADI, Likutei Amarim — Tanya, edição bilíngue, Maayanot, 2022 — edição brasileira.
BACHIA IBN PACUDA, Os deveres do coração, Sêfer, 2012; e Portal da Confiança.
TALMUDE BABILÔNICO. Sotá 4b–5a; Shabat 105b; Pessachim 66b. As referências primárias foram preservadas e acompanhadas, no corpo do artigo, de exposições em português.
FILOSOFIA. PLATÃO, Apologia de Sócrates, 21b–23b — edição em português indicada pela USP. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, livros II e IV. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. Abril Cultural, 1973.
MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade.
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote, Parte I, cap. XVIII.
SHAKESPEARE, William. Medida por Medida, ato I, cena IV.
LEWIS, C. S. Cartas de um diabo a seu aprendiz, Carta IX.

Leituras conectadas

Para aprofundar o diálogo entre fé, virtude, desejo, liberdade e formação da alma, leia também:

Colossenses 3:1–17: o amor como vínculo da perfeição
Paulo, Aristóteles, Agostinho, Evágrio e Epicuro em torno das virtudes, do pensamento e da felicidade.
Prosperidade Bíblica
O dinheiro, o poder e a verdadeira fonte da riqueza — e o momento em que o instrumento começa a disputar o trono.
A Supremacia Absoluta de Cristo
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Escolhas aparentemente pequenas, falsas promessas de liberdade e os caminhos que pouco a pouco formam o caráter.
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Discernimento bíblico diante do medo, da imaginação religiosa e das explicações que ultrapassam o próprio texto.

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Bendito seja o Senhor de todo o universo. Que estas palavras alcancem o destino por Ele traçado e sejam compreendidas sob a luz da Sua perfeita vontade.
Louvado seja Deus.

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