CÍRCULOS

As lágrimas perdidas
na desatenção da alegria.
Depois da utopia,
apenas a Tristeza sorria.

Sorria para quem nada podia:
nem chorar,
nem querer o dia
que em outras lágrimas se perdia.

E para que serve a alegria,
se não nos deixa viver a utopia
de sorver inteiro cada dia?

Servia de oásis
na impossível via.
Mas, ignorada,
já não se via.

Agora sei:
já não podia.
Porque, depois da utopia,
apenas a Tristeza sorria.

Na desatenção da alegria,
as lágrimas perdidas.


Texto e arte: Rubens Baptista
Publicado na seção Poíesis — arte, filosofia e cotidiano.

Leituras recomendadas

Para continuar a travessia entre memória, tristeza, alegria e repetição, leia também:

  • APAGO
    Um poema sobre esquecimento, permanência e a tentativa de não voltar ao lugar onde a dor chama pelo nome.
  • Os que sentem demais
    A dor, a paixão e a rotina aparecem aqui como caminhos para uma forma mais simples, mas não menor, de amar a vida.
  • Em São Paulo
    A memória urbana, a perda e o desaparecimento do lar dialogam com a tristeza circular de “Círculos”.
  • Um sonho dentro de um sonho: Poe, a areia que escorre e o instante que permanece
    Uma leitura sobre o tempo que escapa, a memória que se desfaz e aquilo que permanece mesmo quando já não pode ser retido.
  • Autopsicografia, de Fernando Pessoa
    Pessoa ajuda a pensar a dor convertida em forma, quando o sentimento deixa de ser apenas ferida e passa a ser linguagem.
  • Invictus
    Um contraponto de resistência interior: onde “Círculos” retorna à tristeza, “Invictus” sustenta a dignidade diante dela.

Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

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