Vozes da poesia social lusófona (1869–1947)
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.”
…
“Hoje estou vencido, como se soubesse a verdade.
Hoje estou lúcido, como se estivesse para morrer.”Fernando Pessoa, Tabacaria
“O homem é um canalha; acostuma-se a tudo.”Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo
Voz I — Cesário Verde
O Sentimento dum Ocidental (1880)
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
há tal soturnidade, há tal melancolia,
que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
Voz II — Castro Alves
O Navio Negreiro (1869)
Ontem, plena liberdade,
a vontade por poder…
Hoje, o porão negro, fundo,
infecto, apertado, imundo.
Hoje, cúmulo de maldade:
nem são livres para morrer.
Voz III — Cruz e Sousa
Litania dos Pobres (1895)
Os miseráveis, os rotos,
são as flores dos esgotos.
Bandeiras rotas, sem nome,
das barricadas da fome.
Voz IV — Guerra Junqueiro
A Velhice do Padre Eterno (1885)
Fome, desolação, luto, viuvez, miséria:
a miséria a gemer
e a chorar na via pública.
Voz V — Augusto dos Anjos
Versos Íntimos (1912)
O homem que, nesta terra miserável,
mora entre feras, sente inevitável
necessidade de também ser fera.
Voz VI — Manuel Bandeira
O Bicho (1947)
No pátio da cidade,
entre restos e detritos,
a fome já não distingue
homem, sombra ou bicho.
Voz VII
Não era apenas fome.
Não era apenas rua.
Não era apenas resto.
Era mais um homem.
E a cidade cansada
também fingiu não perceber.
Epílogo
Este jogral reúne vozes separadas por décadas da poesia em língua portuguesa: O Navio Negreiro (1869), de Castro Alves; O Sentimento dum Ocidental (1880), de Cesário Verde; A Velhice do Padre Eterno (1885), de Guerra Junqueiro; Litania dos Pobres (1895), de Cruz e Sousa; Versos Íntimos (1912), de Augusto dos Anjos; e O Bicho (1947), de Manuel Bandeira.
Entre 1869 e 1947, poetas separados por décadas descrevem a mesma cena recorrente: a cidade moderna e o homem reduzido à invisibilidade.
Mudam os séculos, mudam as ruas — permanece o homem que a cidade prefere não ver.
Nota estética
A arquitetura deste jogral aproxima-se, de forma intuitiva, da estrutura da tragédia clássica. A abertura urbana de Cesário Verde funciona como prólogo; as vozes sucessivas de Castro Alves, Cruz e Sousa, Guerra Junqueiro e Augusto dos Anjos formam um coro histórico da miséria humana; a presença crítica de Manuel Bandeira produz o reconhecimento; e a voz final devolve ao leitor o juízo moral da peça.
Como nas tragédias antigas, a revelação não altera o destino — apenas torna visível aquilo que sempre esteve diante de todos.
Texto, seleção, montagem e nota estética: Rubens Baptista
Voz VII: Rubens Baptista
Publicado na seção Poíesis — arte, filosofia e cotidiano.
Leituras recomendadas
Para continuar a travessia entre poesia social, cidade, miséria, invisibilidade e juízo moral, leia também:
- Em São Paulo
A cidade que cresce enquanto perde sua alma doméstica: um poema sobre memória urbana, indiferença e corpos ignorados na calçada. - TOLOS
Um poema seco sobre poder, privilégio e obediência: a chave permanece nas mesmas mãos. - CÍRCULOS
A tristeza, a alegria e a repetição aparecem aqui como movimentos interiores de uma perda que retorna. - Os que sentem demais
Um contraponto íntimo ao jogral social: a dor deixa de ser espetáculo e se converte em escuta, rotina e vida. - Por Quem os Sinos Dobram?
John Donne lembra que nenhuma perda humana é isolada: a queda de um homem diminui todos os outros. - A Violência Contra a Mulher na Literatura: do Sacrifício à Estatística
Uma leitura do sofrimento social quando a literatura deixa de ser ornamento e passa a revelar aquilo que a sociedade prefere ocultar.
Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

