Prólogo — A cidade
Cesário Verde
O Sentimento dum Ocidental — 1880
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
Coro I — O cativeiro
Castro Alves
O Navio Negreiro — escrito em 1869
Hoje… o porão negro, fundo,
infecto, apertado, imundo.[…]
Ontem plena liberdade,
a vontade por poder…
Hoje… cúmulo de maldade,
nem são livres para morrer.
Coro II — Os pobres
Cruz e Sousa
Litania dos Pobres , em Faróis — 1900
Os miseráveis, os rotos,
são as flores dos esgotos.[…]
Bandeiras rotas, sem nome,
das barricadas da fome.
Coro III — A fome
Guerra Junqueiro
A sesta do Sr. Abade , em A Velhice do Padre Eterno — 1885
Andam só pela rua os porcos e as crianças.
Fome, desolação, luto, viuvez, miséria
na aldeia morta. A terra, esquálida e funérea.
Coro IV — A fera
Augusto dos Anjos
Versos Íntimos , em Eu — 1912
O homem, que, nesta terra miserável,
mora, entre feras, sente inevitável
necessidade de também ser fera.
Revelação — O homem
Manuel Bandeira
O Bicho — escrito em 1947
Vi ontem um bicho
na imundície do pátio,
catando comida entre os detritos.[…]
O bicho, meu Deus, era um homem.
A consciência
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Tabacaria — escrita em 1928
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.[…]
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
A conclusão
Fiódor Dostoiévski
Crime e Castigo — 1866
“O homem se acostuma a tudo, o canalha!”
Leituras recomendadas
Para continuar a travessia entre poesia social, cidade, miséria, invisibilidade e dignidade humana, leia também:
- Em São Paulo A cidade cresce enquanto perde sua alma doméstica: um poema sobre memória urbana, indiferença e corpos ignorados na calçada.
- Tolos Um poema seco sobre poder, privilégio e obediência: a chave permanece nas mesmas mãos.
- Por Quem os Sinos Dobram? John Donne recorda que nenhuma perda humana é isolada: quando um homem é diminuído, todos perdem alguma coisa.
- A Violência Contra a Mulher na Literatura: do Sacrifício à Estatística Uma leitura sobre o sofrimento social quando a literatura deixa de ser ornamento e passa a revelar aquilo que a sociedade prefere ocultar.
Veja também: Poíesis, Poíesis Clássicos e Revisum E-Books.

