As coisas são como são

A chuva cai, a água molha, a pedra pesa. As coisas são como são. Nós, não.

As coisas são como são.

Nós, não.

Chamamos de promessa
o desejo inconfesso;
de sinal, um tropeço,
qualquer coincidência
que absolva a consciência.

Queremos da fé o milagre:

um método que encurte o caminho,
nos leve depressa ao vinho
e nos poupe do vinagre.

Mas o milagre não obedece.

Não se compra.
Não se merece.

Depende da graça.
E a graça, de Deus —

que nem sempre
é compreendido pelos seus.

A chuva cai.
A água molha.
A pedra pesa.
Toda escolha
traz consequência.

Não requer grande ciência
nem secreta profecia:

são regras simples
de cada dia.

Nós, não.

Quem não quer viver em engano
não negocia com o invisível.
Mesmo diante do impossível,
não se entrega ao desengano.

Ora.
Trabalha.
Espera.

Sem impor à esperança
a obrigação de acontecer.

Aceita as coisas como são,
não por resignação,
mas porque todo caminho
começa no próprio chão.

Nós não somos
como somos.

As coisas, sim:
são como são.


Texto e arte: Rubens Baptista
Publicado na seção Poíesis — arte, filosofia e cotidiano.


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